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CCNEI Receife - PE, Jesus veio para todos

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Posted by  Published in: Destaques Igrejas CCNEI's

Igrejas inclusivas realizam casamentos homoafetivos, têm cultos regulares que acolhem o público LGBT e realizam estudos sobre as interpretações homofóbicas da Bíblia. Apesar de a imensa maioria das igrejas fundamentadas no cristianismo (sejam católicas ou protestantes) condenar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, igrejas inclusivas se apoiam em princípios evangélicos para serem receptivas à diversidade.

 No livro O Evangelho Inclusivo e a Homossexualidade (Clube de Autores, 2010), o escritor paranaense Fernando Cardoso diz que a primeira igreja com evangelho inclusivo do mundo foi fundada em 1968, pelo Reverendo Troy Perry, nos Estados Unidos.

Entretanto, acrescenta que os quakers, grupos religiosos com origem no movimento protestante britânico, já defendiam a inclusão desde o século 17. O autor explica que as igrejas inclusivas têm como fundamento não fazer distinções entre os fiéis e surgiram para “todos aqueles que por algum motivo não encontram espaço nas igrejas cristãs convencionais, abandonando sua fé devido à segregação”.

A presença delas no Brasil teve início na década de 1990 na contracorrente da homofobia pregada em púlpitos e altares. A Comunidade Cristã Nova Esperança (CCNE) marca presença em nove estados brasileiros, na Argentina em Portugal. Aquino Recife, foi fundada em 2008, com sede na Avenida Caxangá, bairro do Cordeiro. Os fiéis, que acompanham os cultos às quintas e aos sábados, são quase todos gays, lésbicas ou travestis. Responsável pela igreja, o presbítero Wandemberg Torres, 30 anos, está à frente da CCNE desde 2011. Durante 14 anos, pregou em um ministério evangélico conservador. Quando se descobriu homossexual, começou a reprimir os desejos. “Todos me falavam que era uma possessão demoníaca”, lembra. “Passei por um processo de libertação que durou seis anos”. Sua esposa, com quem foi casado por cinco anos, frequentava a mesma igreja e tentava ajudá-lo na cura. Eles acreditavam que a heterossexualidade era uma graça a ser alcançada.

Após diversas frustrações, decidiu largar a igreja e a família. Passou três anos vivendo na noite. “Ia para festas e boates, mas não me encontrava nesses lugares. Convivia com pessoas que não me acrescentavam valores de família, de sociedade”, aponta. “Aquela vida não me pertencia, eu queria continuar sendo cristão”. Para renovar a fé, o processo foi complicado. Todas as ideias que conhecia relacionavam os gays ao pecado. “Eu passei 14 anos pregando contra a homossexualidade. Cada vez que descia do púlpito pensava: ‘meu Deus, estou condenando aquilo que eu sou’”. Se dedicou ao estudo da teologia e, nas pesquisas, acabou descobrindo a comunidade Nova Esperança. Foi para Natal, Rio Grande do Norte, participar de uma reunião da congregação. “Eu só precisei pisar na igreja para sentir um conforto na alma”. Voltou para o Recife e começou a fazer parte da Nova Esperança. “No começo, eu ficava varrendo, limpando a igreja, como forma de me redimir pelos três anos que passei afastado de Deus”. Como já tinha uma base teórica muito bem estruturada, acabou assumindo a igreja em 2011, quando o antigo pastor precisou se afastar.

A CCNE surgiu há doze anos, em São Paulo, com um grupo de homens com mais de 35 anos, casados e evangélicos. Mesmo cientes da sua orientação sexual, reprimiam os desejos homossexuais para continuar frequentando as igrejas. Decidiram então se separar das esposas, conversar com os pastores e fundar um ministério inclusivo. Quatro anos depois, o grupo se tornou uma igreja voltada para acolher o público LGBT. Na congregação valorizam relações estáveis entre duas pessoas e o afastamento de vícios, como a bebida alcoólica e o cigarro. “Hoje, a gente vê travestis, transexuais, que antes estavam se prostituindo, participando da igreja”, comemora Wandemberg. “Essas pessoas se sentem acolhidas e acabam levando a palavra de Deus para dentro das comunidades onde moram, para que outras pessoas que estão vivendo na promiscuidade busquem alternativas para suas vidas”, explica o presbítero.

O psicólogo Diego Paz, 27, conheceu o namorado, o cientista político Thiago Coatti, 29 anos, nos cultos da CCNE. Estão juntos há seis meses. Diego chegou a frequentar a Igreja Batista por cinco anos. “Os líderes pregavam contra a homossexualidade. Diziam que Deus não aceitava e que as pessoas precisavam mudar”. Ele lembra que lhe propuseram várias medidas de transformação. Na época, o psicólogo também acreditava que conseguiria mudar. Chegou a participar de um acampamento. “Era um retiro para a cura. No que eu fui, participaram umas trinta pessoas de várias igrejas diferentes”, lembra. Encontros desse tipo eram organizados pelo Movimento Pela Sexualidade Sadia (Moses), uma ONG religiosa que já não existe mais. Ela se propunha a libertar as pessoas do pecado da homossexualidade. “Depois de várias tentativas frustradas, percebi que não havia nada de errado comigo”, lembra Diego. Passou, então, três anos afastado da igreja, até descobrir a Nova Esperança, no ano passado.

O pastor Joel Bezerra, presidente da Convenção Batista de Pernambuco, alega que um dos fundamentos das igrejas Batistas é o respeito à individualidade. Ele explica que acolhem as pessoas, mas não aceitam a prática. “Nós temos a Bíblia como regra de fé e prática e a homossexualidade é pecado. Nós não podemos ir de encontro à natureza. Deus criou o homem e a mulher”, argumenta. O pastor conta que é muito comum homossexuais pedirem ajuda à Igreja. “São pessoas que estão se sentindo transtornadas e querem sair dessa situação. Então nós as recebemos, tentamos ajudá-las”.

 

O significado das palavras

“O protestantismo nasceu em contraponto ao catolicismo, propondo diferentes leituras do evangelho. E, nessa configuração, várias vertentes de pensamento surgiram”, explica o pesquisador Luís Felipe Rios, que desenvolve pesquisas sobre homossexualidade e religião no departamento de psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Assim, a abertura para o dissenso permite o surgimento de correntes variadas. “Foi assim que homossexuais cristãos encontraram espaço para fundar igrejas onde pudessem expressar a sexualidade”. Ao aprofundar-se nos textos bíblicos, a teoria inclusiva desfaz qualquer associação entre homossexualidade e pecado. “Muitos católicos acabam migrando para essas igrejas, onde se sentem representados”, completa Rios.

O servidor público M., 50 anos, era católico não praticante quando descobriu a Igreja Cristã Contemporânea (ICC). Seu namorado R., 39, custou a acreditar que pudesse ser uma igreja séria. Ainda tinha em mente a visão da Assembleia de Deus, igreja que costumava frequentar.Eles preferem manter a identidade em sigilo, pois não revelam a orientação sexual no trabalho. Em 2011, conheceram a ICC através da internet. Decidiram participar do retiro de carnaval. “A gente se inscreveu pelo site e recebeu um termo repleto de regras a serem seguidas no acampamento”, lembra M.. No acordo, nenhum casal poderia ficar a sós, roupas de banho só poderiam ser usadas na piscina (calção branco é proibido) e carinhos em público não são permitidos. Também é proibido mudar o status de relacionamento. “Se você vai solteiro, você volta solteiro. Se você vai casado, você volta casado”, pontua R. “Os pastores fazem questão de deixar claro que igreja é lugar de oração. Foi assim que percebemos que é uma igreja séria”. Foram batizados.

A igreja foi fundada em 2006, pelo pastor Marcos Gladstone, no Rio de Janeiro. São 1.800 membros, contando também com as cidades de Belo Horizonte e São Paulo. Ainda sem sede no Recife, a congregação repercute na cidade com o Movimento Cristão Contemporâneo, um grupo de cerca de 30 pessoas, que discute a teologia inclusiva. Fazem ainda evangelização em bares e boates recifenses à noite, divulgando a ICC. Também começaram a fazer reuniões no início deste ano e já realizaram quatro encontros. Com base no livro A Bíblia sem Preconceitos, escrito pelo pastor Marcos Gladstone e editado pela própria igreja, debatem as traduções da Bíblia, escrita originalmente em aramaico, hebraico e grego.

“Palavras gregas como malakoi e arsenokoitai significam, originalmente, depravados e pessoas de costumes infames. Para afastar os homossexuais das igrejas, traduções católicas e protestantes da Bíblia as mostram como efeminados e sodomitas”, afirma o pastor Gladstone. “Esse preconceito se propagou nas traduções mais recentes, como a de João Ferreira de Almeida e até na Nova Versão Internacional, em que aparecem traduzidas como homossexuais ativos e passivos”, completa.

 

Bem-vindos

Outras congregações inclusivas já apareceram no Recife, mas não tiveram fôlego para se manter. A Igreja Cristã Inclusiva, fundada em 2006 pelo pastor Ricardo Nascimento, celebrou o badalado casamento dos arquitetos Turibio Santos e Zezinho Santos, em 2009, mas já não existe mais. E a Igreja Progressista de Cristo, fundada em 2008 pelo pastor Kleyton Pessoa, acabou se dissolvendo em 2011. “Muitos evangélicos gays, entretanto, estão participando de cultos dentro de igrejas que não são propriamente inclusivas, mas que não fazem nenhum tipo de restrição aos fiéis homossexuais”, conta Luís Felipe Rios.

O pastor Sérgio Andrade, que está à frente da Igreja Episcopal Anglicana desde 1998, explicou que, apesar de ser uma igreja inclusiva, ainda há muitas divergências com relação à homossexualidade. “A nossa marca é aceitar as diferenças, mas a gente tem uma visão que não é única dentro da própria igreja”. F., estudante de 20 anos que prefere não se identificar, diz que pouco se fala do assunto nos cultos. Ele começou a frequentar a Anglicana há dois meses. Aceitou a indicação do namorado. “Os fiéis respeitam os homossexuais que fazem parte, recebem, mas não aceitam muito bem esse tipo de relação”.

O anglicanismo nasceu na Inglaterra do século 16 e está espalhada pelo mundo. “As congregações vivem em comunhão de pensamento, mas nós não temos um líder normativo, que rege todas as igrejas”, explica Sérgio. Em 2003, o reverendo Gene Robinson, homossexual, foi sagrado bispo, nos Estados Unidos. A nomeação foi questionada por vários líderes da Anglicana, inclusive no Recife. O pastor que, na época, era responsável pela igreja preferiu se afastar, fundando uma nova corrente. Com o racha, a Igreja Anglicana se mudou para uma catedral no bairro do Espinheiro, sob o comando do pastor Sérgio Andrade.

“Nós temos reverendos e reverendas homossexuais e recebemos fiéis com essa orientação”, comenta o pastor. Entretanto, a aceitação do casamento homoafetivo gera polêmica. De acordo com o pastor, essa postura está fundamentada na história do cristianismo, no conceito cristão de família, na forma como se entende o papel do homem e da mulher nas discussões de gênero dentro da igreja. “Eu prego para que possamos receber todas as pessoas. E eu acredito que, na medida que o líder assume essa posição aberta, a comunidade também passa a respeitar e compreender melhor o seu próximo”.

Camila Almeida (texto) / Bernardo Dantas (fotos)

 

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